Não olhe pro Teto
Ali tá ela, velhinha, parada no canto parecendo uma cadeira que a gente puxa pra pôr para a porta parar de bater.. Um olhar de quem já se despediu faz tempo, triste de quem desejava tudo e agora pede é nada. Rosto com o sofrimento do tempo encostada na janela de vidro meio empoeirada, olhando pra rua de trás da Parangaba que nunca passa ninguém.. Era demência avançada.. Galera do jaleco branco sempre diz a mesma coisa: AVC, demência, idade... Sempre engraxando a desgraça alheia com palavra que vem fácil..
Hoje foi cabuloso..
Tava eu lá, joelho doendo no chão frio e mal varrido, passando creme nas pernas dela.. Aquela pele que hoje mais parece um guardanapo usado de cantina escolar, como se fosse rasgar, com tantas veias roxas distorcidas como cobrinhas..
Aí começou (nossa, suando só em lembrar) o ar do quarto parecia bem pesado, como se tu respirasse chumbo, ruim de puxar.. Cara, senti os dedos dela mudarem, contorceu e a força fechou no meu pulso com toda raiva, Vapuuu... Aquela força toda vinha de onde, Jesus Amado?? Aquelas unhas desbotadas, descascando na ponta, meio amarronzadas, entraram na minha pele, senti um ardor e uma quentura escorrendo pelo meu braço..
Olhei pra ela e logo entrei em modo desespero.. Não tava mais olhando pra nada. As pupilas tinham engolido toda a cor dos olhos.. A boca salivava e esticando a pele.. Não era cheiro de idosa com talco e lenço umedecido, era resto de comida esquecida num saco de lixo.. Aquilo impregnou logo no meu nariz..
Elaaaa falouuu.. Mas a miséria da voz não vinha da boca, parecia que saía do peito, tipo uma lixa raspando em parede molhada:
"Não Olhaaa Pro Tetooo"..
Calafrios.. Eu fiquei lá, suor escorrendo vindo com pânico, coração dando coice pela garganta seca.. Corri...
A mente prega peças, mas nesse caso parece como se.. Ah, esquece, depois conto. Muito nervosa agora, escrevo tortas por linhas certas nesse momento, mas o meu pulso tava ali machucado, ainda vermelho, escorrendo.. Passei o dia todo na sala inquieta, o chão passou a ser o cenário da minha vista, medo de olhar qualquer lugar.. Pescoço duro, travada.. Às 17:30, barulho de carros e choro mais à frente, eu escuto vizinhos voltando do funeral do filho mais velho. Artrose na coluna de tanto olhar pro chão, resolveu por si mesmo parar de sofrer... Noite chegando, fui lá de novo. A porta rangia como se pedisse socorro.. Ela dormia num sono meio cortado, sei lá, a barriga subindo e descendo errada, meia torta.. Ia sentar na poltrinha perto da cama, pera!! Pronto, sempre de cabeça baixa olhando pras minhas unhas ainda sujas de creme nas pontas. Sim, e a janela tava ali, um breu fazendo aquele espelho..
Algo mudou, ficou pesado de repente, denso, difícil descrever. Queria poder arrastar vocês pra sentirem isso comigo.. Meu coração disparou e o cansaço acumulado por cuidar de alguém definhando virou chumbo... A velhinha abriu os olhos.. Não tinha mais doideira, era só o medo mais puro que já vi. Ela puxou meu braço quase sem força e sussurrou:
"Soltou.. Agora ele caça.."
E faleceu ali, expirou que nem vela em vento forte..
Eu corri em disparada pro meu quarto, tranquei foi tudo, enfiei meu lençol nas brechas da porta.. Parecia que o ar tava vazando.. Apaguei a luz, segurando o celular com uma mão, a outra tremendo, cabeça baixa, suor escorrendo, cabelo perturbando, tremendo todinha, dormência nos dedos.. Não era a parede. Era em cima, no teto, no gesso, alguma coisa circulava bem sobre o teto.. Em cima de mim..
Juro, não olhei...
O teto parecia a minha própria exaustão apenas querendo desabar comigo... Será que é por isso que a velha não falava? Pra não chamar atenção disso? Se a única reza era o silêncio? Eu quebrei...
Casa velha, tudo estala... Barulhos que antes eu nem reparava agora me sufocavam o juízo, desespero e taquicardia me consomem por inteira... Agora escuto apenas o som do relógio na parede rezando pra que a pilha não acabasse..
Depois daquela noite, esquece, nunca mais fui dormir de barriga pra cima, prometi a mim mesma nunca mais olhar pro teto.. Nunca entendi realmente quem era o quê..
Mas e se ela viveu cinco anos assim só pra me proteger de algo?
E tu aí de cabeça baixa o dia inteiro, deixa quieto, nem precisa responder. Mas senta aqui do meu lado, deixa eu te contar uma história de sessenta anos atrás.. Mas jura pra mim e por todos aqui nessa clínica psiquiátrica:
"NÃO OLHA PRO TETO"
E tu, já olhou pro teto hoje?



Que texto. Fui fisgada no início ao fim. Que construção maravilhosa que vc fez. 🤌🏼✨
Parei de dormir de barriga pra cima faz algum tempo. Agora tenho mais um motivo para seguir assim. Hehe.
Muito show a dinâmica do texto.
👏👏