A Tinta No Pescoço
Uma história Dark Romance por ( Ranara Silva )
O espartilho tá acabando comigo. Esse calor de noite aqui em Fortaleza não é de Deus e esse raio dessa barbatana vive me espetando bem debaixo da costela esquerda. Fez foi um calo vermelho que não para de coçar. Sinto o suor descendo grosso pelo meio dos peitos, melando o cetim branco do corpete que painho mandou vir de navio pra mim.
A luz do candeeiro de querosene fica piscando na parede da sala. O óleo tá quase no fim e sobe aquele cheiro de bicho morto misturado com a fumaça preta pro teto de lambri. As lagartixas tão lá, tudo paradinha perto do bico do fogo, só na espera dos mosquito.
Maricotinha se foi faz seis meses. O quarto dela lá em cima continua trancado com a chave que mamãe guarda no escapulário, mas o cheiro dela não sai dessa casa por nada. Aquele cheiro de alfazema misturado com o azedo do vômito de sangue que ela botava pra fora antes de apagar de vez. O pulmão dela virou foi água.
E ele não foi embora. Painho disse que ele tinha que ficar até ajeitar o inventário da fazenda de Mocejó. Direito dele, né? Afinal, era o marido.
Tá lá sentado na varanda, de frente pro mar de Iracema. A maré tá enchendo e esse barulho das onda batendo nas pedra do cais velho dá uma agonia na cabeça da gente. Parece um jumento batendo os casco na porta de madeira. Um som oco, pesado. Sei que ele tá lá fora porque o cheiro do charuto entra pela fresta da veneziana. Um tabaco forte, ruim, que deixa a cortina da sala toda amarela.
Eu devia era tá no meu quarto rezando o terço que mamãe me deu de osso de camelo. A moça da casa, né? A que sabe tocar piano e falar francês com o padre. Mas minhas mão tão é dura em cima da mesa de jacarandá. O verniz tá soltando por causa da maresia e gruda no punho do meu vestido.
Escutei o sapato dele no corredor de ladrilho. Ele não anda feito esse povo da cidade, não. Pisa com o calcanhar primeiro. O couro do sapato tá velho e fica rinchando.
Parou perto do piano. O paletó de linho tá todo amarrotado nas costas, cheio de mancha de suor debaixo do braço. Tirou o colarinho duro e largou em cima das tecla do piano. O marfim tá encardido e o colarinho ficou ali parecendo um pescoço cortado.
— Tu não foi deitar por que, Ranara?
Falou meu nome com aquela voz que vem de dentro do peito, que parece que tem areia na garganta. Ele tem os dente da frente meio cavalgado, um por cima do outro, tudo escuro de fumo. Quando ele fala, a boca mexe torto pra direita. Eu achei que ele ia falar da fazenda. Ou de Maricotinha.
Minha irmã era branca que nem cera de vela. Ele nunca encostava nela na frente de ninguém. Tratava feito uma santa de gesso que painho comprou pra botar na capela. Mas eu vi uma vez, pelo buraco da fechadura da despensa. Ele segurando o braço dela com uma força que o dedo chegava a afundar na carne gorda dela. Maricotinha não chorava. Ficava só olhando pro teto com o olho arregalado feito peixe morto na praia.
Pois eu não sou Maricotinha. Eu tenho é o corpo quente. Meu sangue corre é rápido.
Ele chegou perto da mesa. O calor dele cheira a suor velho e maresia. Nem me tocou. Pegou o vidro de nanquim que tava aberto do lado do meu caderno de caligrafia. O polegar dele tem a unha rachada no meio, uma fresta preta de sujeira que não sai nunca. Enfiou a ponta do dedo na tinta preta. Devagarinho.
Aí olhou pra mim. O olho dele é cor de água de poço escuro, sem fundo.
Passou o dedo melado de tinta no meu pescoço, bem em cima da veia que tava pulando. A tinta tava fria, molhada. Escorreu um pingo pelo meu colo e entrou direto no cetim do vestido. Manchou a renda francesa, estragou a roupa de duzentos mil réis que painho comprou.
Tu morde os beiço quando tá com medo, ele disse baixinho.
A boca dele chegou perto da minha orelha, mas não encostou. Senti o mormaço da respiração dele na minha pele. O cheiro de fumo me deu foi uma tontura, um nó na boca do estômago. Limpou o resto da tinta da mão no pano da mesa da minha mãe. Deixou a marca dos cinco dedo no linho bordado. Depois virou de costas e subiu as escada pro quarto que era deles. O sapato rinchando em cada degrau.
Fiquei ali sentada. A tinta secando no meu pescoço, puxando a pele pra trás, repuxando. Parecia uma mão me apertando pela garganta. Olhei pro borrão preto no pano da mesa. Amanhã eu digo pra mamãe que foi o gato que derrubou o vidro. Ela acredita. Ela sempre acredita no que eu digo.



O que mais ficou comigo não foi a cena da tinta, mas o que ela provoca. O desconforto, o medo e aquela tensão que nunca explode, apenas aperta o peito do leitor. É uma escrita que parece conhecer muito bem os silêncios e as marcas que certas presenças deixam, mesmo quando já foram embora. Não sei de onde nasceu esse texto, mas ele carrega uma verdade emocional difícil de fingir. Terminei a leitura ainda dentro daquela casa.
João Vilamarte falou tudo. Não posso adicionar mais nada. Parabéns!